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Meio Ambiente e Clima 5 min read 5h ago

Roma estuda catacumbas como abrigos contra o calor extremo

  • Roma e o ISPRA estudam transformar catacumbas e antigas cavidades subterrâneas em abrigos climáticos gratuitos, onde temperaturas ficam em torno de 16°C mesmo quando a superfície
  • Obstáculos como instabilidade estrutural, umidade elevada e emissão de radônio precisam ser resolvidos antes do uso público, mas o geólogo responsável pelo estudo considera todos
  • A cidade lançou seu primeiro Plano de Calor com investimento de 50 milhões de euros em cinco anos, em resposta ao aumento de quase dois graus nas temperaturas locais e à
Roma estuda catacumbas como abrigos contra o calor extremo
Roma estuda catacumbas como abrigos contra o calor extremo

A poucos metros abaixo das ruas de Roma, onde a temperatura se mantém estável entre 10°C e 17°C mesmo quando o termômetro ultrapassa 37°C na superfície, a Prefeitura da capital italiana e o Instituto Superior para Proteção e Pesquisa Ambiental (ISPRA) estudam se antigas pedreiras, catacumbas e sítios arqueológicos poderiam um dia abrigar cidadãos durante ondas de calor extremo. A ideia ainda está em fase muito preliminar, mas ganha urgência à medida que o verão europeu bate recordes com frequência cada vez maior.

Uma cidade sob a cidade

Roma possui um subsolo excepcionalmente rico. Ao longo de séculos, a geologia vulcânica da região — com materiais como tufo e pozolana, de fácil escavação — gerou uma densa rede de cavidades que abrigou, em diferentes épocas, locais de culto ao deus Mitra, sepulturas cristãs primitivas, túneis ferroviários e abrigos antiaéreos da Segunda Guerra Mundial. O levantamento mais recente, realizado pelo ISPRA em conjunto com o Conselho Nacional de Pesquisa (CNR) e a Universidade de Túscia, identificou milhares de cavidades sob mais de 100 quilômetros quadrados da capital. Segundo Francesco La Vigna, geólogo do ISPRA e presidente do Grupo de Especialistas em Geologia Urbana da EuroGeoSurveys, essa distribuição permitiria encontrar espaços potenciais em quase todos os bairros da cidade, sobretudo nas áreas de origem vulcânica.

A estabilidade térmica do subsolo é o principal argumento científico. A partir de aproximadamente 3,5 metros de profundidade, o solo deixa de registrar as variações térmicas da superfície. "Em Roma, durante medições de verão em que as temperaturas externas superavam 37 graus, as cavidades registravam mal 16 graus", afirma La Vigna. Trata-se de um fenômeno conhecido desde a Antiguidade — os romanos já usavam os espaços mais profundos dos edifícios para conservar vinho e alimentos —, mas a novidade é a possibilidade deliberada de mobilizá-lo como ferramenta de adaptação climática.

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Obstáculos técnicos e condições da Prefeitura

O caminho entre o potencial e o uso público é longo. Muitas das antigas cavidades estão abandonadas há décadas ou séculos. Antes de receber cidadãos, seria necessário verificar a estabilidade de tetos e paredes e, onde necessário, realizar obras de consolidação. Outros dois problemas se somam: a umidade frequentemente elevada e a possível emissão de gases como o radônio — prejudicial em exposição prolongada — pelas rochas vulcânicas. La Vigna, porém, considera esses obstáculos superáveis. "Garantir a segurança estrutural de um espaço subterrâneo é tecnicamente viável e, sem dúvida, menos custoso do que construir um do zero, enquanto problemas de umidade e presença de gases nocivos podem ser facilmente resolvidos com sistemas de ventilação adequados", argumenta o geólogo, que propõe começar pelos espaços maiores, mais bem preservados ou que já recebem visitantes, como determinados sítios arqueológicos.

A Prefeitura estabelece duas condições inegociáveis: segurança e acesso gratuito. "Segurança, incluindo renovação do ar, e acesso gratuito, como ocorre com outros abrigos climáticos", define Edoardo Zanchini, diretor do Gabinete de Mudança Climática da Prefeitura. Os espaços subterrâneos se somariam a uma rede já existente de 178 locais fechados com ar-condicionado — entre bibliotecas, museus e centros comunitários — e mais de 400 áreas externas, principalmente parques e jardins.

Calor crescente e um plano de 50 milhões de euros

A urgência da iniciativa é respaldada por dados da própria Prefeitura: as temperaturas em Roma subiram quase dois graus nos últimos quatro anos em comparação com a média de 1990–2020, e o número de noites tropicais — aquelas em que o termômetro não cai abaixo de 20°C — triplicou. O verão europeu tem sido marcado por uma sucessão quase ininterrupta de ondas de calor, com temperaturas acima de 40°C em várias regiões da Itália, especialmente no sul — Sicília, Calábria, Campânia e Apúlia. No início de agosto, as 27 cidades incluídas no sistema nacional de monitoramento de calor do Ministério da Saúde estavam simultaneamente em alerta vermelho, o nível máximo.

Em resposta, Roma lançou seu primeiro "Plano de Calor", com investimento de 50 milhões de euros ao longo dos próximos cinco anos. A iniciativa inclui abrigos climáticos, pontos de água potável gratuita, sessões de cinema durante os horários mais quentes e intervenções de maior escala para transformar o espaço urbano com mais sombra, vegetação e remoção de superfícies pavimentadas.

Um modelo para cidades mediterrâneas

A ideia de explorar o subsolo urbano como recurso climático surgiu no âmbito do grupo de geologia urbana da EuroGeoSurveys, que reúne especialistas de diferentes países. Toronto e Montreal já mantêm redes de espaços subterrâneos para proteger habitantes dos invernos rigorosos canadenses, enquanto Helsinque possui um plano específico para regulamentar os usos de seu subsolo. No Mediterrâneo, o adversário é cada vez mais o calor. Estudos apontam para a escalada das consequências do aquecimento global na Europa, exigindo respostas criativas e de longo prazo. Roma troca experiências sobre adaptação climática com Barcelona e Atenas por meio da rede C40, que agrupa cerca de 100 cidades. "Enfrentamos um desafio sem precedentes, mas compartilhado por todas as cidades do mundo", diz Zanchini. "Para nós é essencial trocar ideias e projetos, mas, acima de tudo, aprender com as experiências dos outros." La Vigna vai além: para ele, a experiência romana poderia servir de modelo para aproveitar o patrimônio subterrâneo existente — atualmente em grande parte inacessível — sob a perspectiva da adaptação climática.

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