Lawrence Abu Hamdan e as provas sonoras
- Lawrence Abu Hamdan, artista libanês-britânico e vencedor conjunto do Turner Prize em 2019, dirige a Earshot, ONG fundada em 2023 que investiga abusos de direitos humanos com base
- A Earshot analisou a trajetória de disparos israelenses contra socorristas em Gaza e reuniu indícios de uso de arma sônica para dispersar uma vigília silenciosa em Belgrado — caso
- O trabalho precursor de Abu Hamdan incluiu entrevistas com sobreviventes da prisão síria de Sednaya, onde detentos viviam em escuridão e silêncio forçados e eram mortos por emitir
Lawrence Abu Hamdan acumula duas identidades que raramente coexistem com tanta tensão criativa: é artista visual libanês-britânico, vencedor conjunto do Turner Prize em 2019 e com obra presente na Bienal de Veneza deste ano, mas é também o diretor da Earshot, uma ONG fundada em 2023 que investiga violações de direitos humanos por meio de evidências sonoras. Nas palavras do próprio campo de atuação, isso significa, em certos casos, debruçar-se sobre assassinatos documentados.
O som como ferramenta forense
A equipe da Earshot analisa, por exemplo, a direção e a posição dos disparos efetuados por soldados israelenses contra trabalhadores de emergência em Gaza. Em outro front investigativo, reuniu indícios de que uma arma sônica teria sido utilizada para dispersar uma vigília coletiva em silêncio realizada em Belgrado — alegação que, segundo os próprios investigadores, os dados sonoros tornam provável, embora o caso permaneça em aberto.
Raízes em Sednaya
O trabalho fundacional que pavimentou esse caminho remonta a 2016, quando Abu Hamdan colaborou com a agência de pesquisa Forensic Architecture em um projeto para a Anistia Internacional. Naquela ocasião, ele entrevistou sobreviventes da prisão síria de Sednaya — um lugar de condições descritas como de barbaridade inimaginável, onde detentos eram mantidos em escuridão total e silêncio forçado, punidos com a morte por qualquer ruído. Nesse ambiente, escutar era ao mesmo tempo a única fonte de informação dos prisioneiros e um instrumento de sobrevivência e resistência. As memórias sonoras que eles guardavam — gritos de dor, o ranger de chaves — tornaram-se matéria-prima documental.
Arte e ativismo como faces da mesma moeda
Para Abu Hamdan, a fronteira entre a prática artística e a investigação ativista é deliberadamente porosa. Sua presença na Bienal de Veneza e seu papel à frente da Earshot não são atividades paralelas, mas expressões de um mesmo método: a escuta como ato político. A consolidação da Earshot como estrutura institucional, dois anos após sua fundação, sugere que esse método ganhou reconhecimento além dos circuitos da arte contemporânea — e que as provas sonoras passaram a ocupar um lugar cada vez mais relevante no ecossistema da documentação de direitos humanos.
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