Silvia Pérez Cruz leva show gratuito a uma Havana em crise
- Silvia Pérez Cruz realizou concerto gratuito na Igreja de São Francisco el Nuevo, em Havana, como parte da turnê latino-americana do álbum 'Oral Abisal'.
- Cuba vive crise aguda de escassez de água, eletricidade e gás após sanções petroleiras impostas pelos Estados Unidos, restringindo drasticamente o acesso da população ao lazer.
- O anúncio do show gratuito gerou euforia entre parte dos habaneros, que enxergaram na apresentação um raro momento de alívio cultural em meio à austeridade cotidiana.
Em meio a apagões, escassez de água e gás e uma realidade cada vez mais sufocante, a cantora espanhola Silvia Pérez Cruz se apresentou gratuitamente na Igreja de São Francisco el Nuevo, em Havana, num domingo que boa parte do público habanero viveu como um sopro de ar fresco. O show faz parte da turnê latino-americana de Oral Abisal, seu disco mais recente, e a simples notícia do concerto gratuito foi suficiente para desencadear euforia entre uma parcela dos moradores da capital cubana.
Uma ilha presa no fundo de si mesma
Cuba atravessa uma crise de proporções severas desde que os Estados Unidos intensificaram as sanções econômicas e o bloqueio petroleiro ao país, agravando a escassez de insumos básicos. Segundo o relato que contextualiza o evento, grande parte da população perdeu a noção dos dias, dividida entre resolver necessidades elementares — água, luz e gás — e trabalhar para conseguir comprar alimentos. Nesse cenário, a oferta de lazer encolheu e encareceu, tornando rara qualquer programação cultural acessível.
Música como exceção e resistência
É nesse contexto de privação que um concerto gratuito adquire uma dimensão que vai além do entretenimento. O anúncio de Silvia Pérez Cruz foi recebido como oportunidade excepcional por quem, há muito, mal se permite frequentar os poucos espaços culturais que ainda funcionam nas cidades cubanas. Assim como outras artistas que usam a voz como ato político e afetivo, a cantora catalã transformou o palco numa rara interseção entre arte e alívio coletivo numa ilha que busca, a cada ato cultural, manter acesa alguma centelha de vida pública.
A apresentação em Havana integra a agenda latino-americana de Oral Abisal, álbum cujo título — abismo oral — ressoa de modo involuntariamente preciso com o isolamento e a profundidade da crise que Cuba enfrenta. O quanto o concerto conseguiu, de fato, preencher esse vazio, permanece, pela natureza do relato disponível, em aberto.
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