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Cultura e Artes 5 min read 3h ago

Naufrágios: da arte romântica ao cinema de Nolan, uma metáfora persistente

  • Christopher Nolan expôs atores e equipe a tempestades reais durante as filmagens de The Odyssey, com Charlize Theron e Matt Damon, em uma réplica de navio viking.
  • O naufrágio do iate Bayesian ao largo da Sicília em agosto de 2024 matou o milionário Mike Lynch e seis outras pessoas, tornando-se tema de ensaio filosófico publicado em 2025.
  • A obra Barca Nostra, de Christoph Büchel, exibida na Bienal de Veneza de 2019, é o casco real da embarcação cujo naufrágio matou centenas de migrantes no Mediterrâneo em 2015.
Naufrágios: da arte romântica ao cinema de Nolan, uma metáfora persistente

Há uma lenda — desmentida por historiadores da arte como James Hall — segundo a qual o pintor William Turner teria se mandado amarrar ao mastro de um navio durante uma tempestade violenta para depois transformar a experiência na tela Snow Storm (1842). A anedota pode ser falsa, mas o impulso que ela descreve é absolutamente real: a compulsão de artistas e cineastas por capturar a fúria do mar com a máxima fidelidade possível. Hoje, esse impulso se repete nas filmagens de The Odyssey, de Christopher Nolan, cujo set incluiu uma réplica de navio viking e cenas em que os comprimidos contra enjoo acabaram durante a filmagem da sequência de naufrágio na ilha de Ogigia — onde Calypso, interpretada por Charlize Theron, mantém Odisseu, vivido por Matt Damon, após a morte de sua tripulação.

A tragédia preferida da modernidade

O naufrágio não é apenas um acidente. Durante o Romantismo, tornou-se o tema central de uma geração inteira de pintores e escritores, de Géricault a Delacroix, de Vernet a Turner. Immanuel Kant, em Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime (1764), já havia nomeado o fenômeno ao descrever "o oceano sem fronteiras lançado em fúria". A professora e historiadora da arte Esperanza Guillén, em Naufragios (Siruela, 2004), examina como esse tema dominou o imaginário coletivo até o fim do século XIX, ligando-o ao conceito kantiano do "sublime dinâmico" — a estranha beleza do perigo observado de uma posição segura. Percy Shelley afogou-se no Mar Tirreno em 1822; por volta de 1850, quase toda família abastada britânica havia perdido alguém para as ondas. Com a construção dos grandes navios de aço no início do século XX e novas técnicas de soldagem, o naufrágio perdeu seu poder de ameaça cotidiana — até o Titanic, em 1912, reafirmar que o oceano ainda existia, para usar as palavras do poeta russo Alexander Blok, que disse ter ficado "indescritivamente feliz" com o desastre.

Do ecrã ao museu: uma obsessão que não desaparece

O naufrágio nunca deixou as telas de cinema. A Aventura do Poseidon (1972) e Titanic (1997) quebraram recordes de bilheteria. Mais recentemente, o documentário Shipwrecked: Nightmare at Sea, sobre o naufrágio do Costa Concordia em 2012, figurou entre os títulos mais assistidos da Netflix em julho de 2026. No campo da arte, o performer Bas Jan Ader tentou cruzar o Atlântico sozinho em um veleiro de pequeno porte sem experiência náutica; seu barco foi encontrado à deriva entre a Irlanda e os Açores em abril de 1976 e ele nunca mais foi visto. Por meses, o incidente foi interpretado como uma performance, não como uma tragédia. Na 58.ª Bienal de Veneza, em 2019, Christoph Büchel expôs Barca Nostra, o casco recuperado de uma embarcação cujo naufrágio — o mais mortífero registado no Mediterrâneo — custou centenas de vidas de migrantes em 2015 ao largo de Lampedusa. A travessia do Mediterrâneo continua a ser uma das rotas mais letais do mundo para quem foge de guerras e perseguições. O filósofo e matemático Javier Moreno, em A Beleza do Acidente (AKAL, 2025), usa o naufrágio do iate Bayesian — que afundou ao largo da Sicília em agosto de 2024, matando o milionário Mike Lynch e outras seis pessoas — para observar que erros capazes de engolir fortunas construídas sobre a gestão da incerteza têm uma ironia própria: Lynch ficou rico com empresas de inteligência artificial que usam inferência bayesiana para modelar probabilidades, e batizou seu iate com esse nome.

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Metáfora viva, tragédia real

A escritora Sophie Elmirst, em A Marriage at Sea (Riverhead, 2025), reconstrói o naufrágio real do casal Bailey no Pacífico — colisão com um cachalote, afundamento do veleiro — mas declara interesse menor nos detalhes técnicos de sobrevivência do que na dimensão psicológica: o que acontece com um casamento quando se retira qualquer possibilidade de sair da sala. O filósofo Hans Blumenberg, em Naufrágio com espectador (1978), já havia identificado a viagem marítima como um dos modelos existenciais mais persistentes em todas as culturas, por incluir a partida, o porto, a tempestade, a calmaria e, fundamentalmente, o naufrágio. Essa persistência explica por que cineastas como Ruben Östlund, em The Square (2017), ou Nolan em seu próximo épico recorrem à imagem: ela concentra, em poucas cenas, o que a filosofia precisa de séculos para articular. O que não se pode perder de vista, porém, é que enquanto a metáfora do naufrágio prospera na ficção, os naufrágios reais continuam a acontecer — e continuam a matar.

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