Um ano de tropas em Washington: custo bilionário e sem consenso
- Um ano após o envio da Guarda Nacional a Washington, cerca de 4.500 soldados patrulham a cidade a um custo estimado de quase US$ 3 bilhões até o fim do mandato de Trump em 2029.
- Especialistas e o Niskanen Center questionam a eficácia da medida, apontando que a queda do crime é nacional e que as tropas foram acionadas principalmente em bairros ricos com
- 79% dos moradores de Washington se opõem ao destacamento, segundo pesquisa do Washington Post, e a ACLU-DC alerta para o risco de normalização da presença militar nas ruas
Cerca de 50 pessoas se reuniram em uma das esquinas mais movimentadas de Washington — a intersecção das ruas 14th e U — para protestar contra a presença de militares na capital dos Estados Unidos. Cartazes com frases como "Tropas fora de DC" e "Queremos estatalidade agora" marcavam o primeiro aniversário de uma das decisões mais polêmicas do governo Trump: o envio da Guarda Nacional à capital federal para, segundo o presidente, "libertar Washington D.C." da criminalidade e da situação de rua.
O pretexto e a decisão
Em meados de agosto de 2025, Trump anunciou o destacamento de tropas afirmando que a capital havia sido "tomada por gangues violentas e criminosos sedentos de sangue". Os dados, porém, contrariavam essa descrição: os índices de criminalidade estavam no nível mais baixo em 30 anos, e a violência havia recuado 35% em 2024, o ano imediatamente anterior ao seu retorno ao poder, segundo dados do Departamento de Polícia Metropolitana. O estopim imediato para a ação foi um assalto a Edward Coristine, funcionário do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), que foi atacado durante uma tentativa de roubo de carro no início de agosto do ano passado.
Mais soldados do que policiais
Um ano depois, cerca de 4.500 soldados patrulham Washington — número superior aos 3.800 oficiais do Departamento de Polícia Metropolitana. A operação alcançou seu pico com mais de 5.000 militares vindos de 18 estados, majoritariamente republicanos, mobilizados durante as celebrações do 250º aniversário da independência americana. Uma análise do Niskanen Center, instituto de pesquisa conservador, estimou que o governo gasta US$ 607 por dia com cada soldado, contra US$ 384 por policial. O Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) calculou que a operação custou US$ 225 milhões em 2025, com cada mês adicional representando outros US$ 55 milhões — uma conta que, pela projeção do órgão, pode chegar a quase US$ 3 bilhões até o fim do mandato de Trump, em janeiro de 2029. Para abrigar as tropas com mais economia, o Pentágono aprovou um orçamento de cerca de US$ 300 milhões para locar apartamentos em vez de quartos de hotel.
Eficácia contestada
Apesar de os índices de criminalidade em Washington terem continuado a cair, especialistas não atribuem o declínio à presença militar. O crime vem recuando em todo o país. O Niskanen Center concluiu que a Guarda Nacional pode ter reduzido crimes oportunistas, como furtos e pequenos delitos, mas não os crimes violentos mais graves, caracterizando a medida como "um instrumento contundente e caro". Uma análise da Reuters de 16.000 registros judiciais revelou que as tropas foram, em grande parte, acionadas para incidentes menores em bairros mais ricos e predominantemente brancos, com baixos índices de criminalidade — raramente aparecendo em áreas problemáticas como Anacostia, no sudeste da cidade. Os soldados foram designados como marshals federais para ter autoridade de fiscalização, mas um juiz proibiu prisões sem mandado prévio. Na prática, podem deter suspeitos temporariamente, mas precisam acionar a polícia para formalizar qualquer detenção. Nos primeiros meses, era comum ver militares esvaziando latas de lixo, fazendo jardinagem ou removendo neve.
Vozes contra o destacamento
A oposição é ampla. Uma pesquisa do Washington Post indicou que 79% dos moradores de Washington são contrários à medida. Monica Hopkins, diretora da ACLU-DC (União Americana pelas Liberdades Civis no Distrito de Columbia), alertou para o risco de normalização da presença militar: "Não podemos ficar insensíveis ao espetáculo de tropas militares patrulhando nossos bairros", escreveu. O senador democrata Chris Coons, de Delaware, argumentou que seria mais eficaz destinar US$ 100 milhões ao Departamento de Polícia de DC para contratar agentes treinados. A prefeita de Washington, Muriel Bowser, afirmou recentemente que ficou "demonstrado, na prática e politicamente, que não havia necessidade de uma ação federal de emergência prolongada". José Nunn, do Brennan Center for Justice, instituto liberal, sustentou que a substituição de autoridades civis por militares é "simplesmente incompatível com nosso sistema constitucional".
Trump defende a operação
O presidente, no entanto, insiste no êxito da iniciativa. "O crime caiu 84% [em Washington], e eu fiz isso em pouco tempo", disse na semana passada, do Salão Oval. A queda de aprovação de Trump em diversas frentes torna o desdobramento da operação em Washington um dos principais campos de disputa narrativa de seu governo. Enquanto isso, a Casa Branca emitiu uma ordem para manter as tropas nas ruas até o fim do mandato, e Benjamin Zinevich Rodríguez, de 29 anos, porta-voz do Partido pelo Socialismo e Libertação, resume o sentimento dos manifestantes: "Esta demonstração é importante porque chama atenção para a oposição dos moradores de Washington à presença de tropas militares, agentes federais e da polícia de imigração." A presença militar sem precedentes em escala e duração — até a guerra do Irã, a maior operação doméstica do Pentágono — permanece sem prazo de encerramento, com um custo crescente e resultados ainda disputados.
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