Garífunas recuperam terras na Honduras
- A OFRANEH recuperou nove manzanas (6,2 hectares) na comunidade garífuna de San Juan, no município hondurenho de Tela, onde planeja construir moradias e um parque infantil.
- Membros da comunidade montaram postos de vigilância permanentes nos terrenos recuperados, alertas para a presença de veículos desconhecidos que rondam a área.
- Lideranças garífunas afirmam que não abandonarão seus territórios, enquanto a identidade e as intenções dos grupos que monitoram as áreas permanecem incertas.
Wilfredo Guerrero passa os dias debaixo de uma galera de madeira e lâmina recém-construída no meio de um terreno baldio. Há um mês, aquele prédio improvisado é sua casa, posto de vigilância e símbolo de resistência. Quando um carro vermelho desconhecido entra no terreno, ele larga o prato de arroz com feijão, se cola a uma lâmina de metal e coloca a mão na cangueira que usa na cintura. Só relaxa quando reconhece os ocupantes do veículo. "É que esses caras trocam de carro como se trocam de cueca", diz, rindo, antes de voltar à refeição.
Território recuperado em San Juan
A cena se repete em diferentes comunidades garífunas no município de Tela, no litoral atlântico hondurenho. Na comunidade de San Juan, lideranças da Organização Fraternal Negra Hondurenha (OFRANEH) hastearam sua bandeira na entrada principal de um terreno de nove manzanas — equivalentes a 6,2 hectares — recentemente retomado. No local, a comunidade planeja construir moradias e um parque para as crianças.
Vigilância constante e determinação
O comportamento cauteloso de Guerrero revela o grau de tensão que permeia a disputa. A troca frequente de veículos por parte de desconhecidos que rondam as áreas recuperadas é interpretada pelas lideranças como sinal de monitoramento externo, embora a identidade e os interesses desses grupos não estejam confirmados no material disponível. O que os garífunas deixam claro é a disposição de permanecer: "Não vão nos tirar do nosso paraíso", sintetiza o espírito que orienta a ocupação.
A resistência das comunidades garífunas em Tela insere-se num contexto mais amplo de disputas territoriais que afetam povos originários em toda a América Latina, onde grupos vulneráveis frequentemente enfrentam pressões sobre suas terras sem amparo institucional suficiente — realidade que também marcou os esforços de voluntários após tragédias como o terremoto em Cali.