Harald V: amor eterno por Sonja
- O rei Harald V da Noruega morreu aos 89 anos em 28 de agosto de 2026, um dia antes de completar 58 anos de casamento com a rainha Sonja.
- O rei Olav V proibiu o casamento de Harald com Sonja por nove anos por ela ser plebeia, e Harald declarou que permaneceria solteiro para sempre caso não pudesse se casar com ela.
- O casal enfrentou uma grave crise matrimonial nos anos 1980, recorreu a terapia e superou a situação; Harald reconheceu publicamente em 1993 que o casamento exigiu perdão e
Ele morreu um dia antes de celebrar 58 anos de casamento. O rei Harald V da Noruega, que faleceu na manhã de sexta-feira às 6h35 aos 89 anos, deixou para trás não apenas um reinado de três décadas e meia, mas também uma história de amor que chegou a ameaçar o futuro da própria monarquia norueguesa. A rainha Sonja, também com 89 anos, chegou ao hospital em Oslo às 7h39, minutos depois da morte do marido. No sábado, 29 de agosto, o casal teria completado 58 anos de união.
Nove anos de amor proibido
Harald e Sonja se conheceram em junho de 1959, numa festa particular. Ele tinha 22 anos, ela 21. O então príncipe herdeiro ficou encantado com os olhos castanhos de Sonja — algo que ele mesmo admitiria mais tarde. O problema, aos olhos da corte, era a origem dela: Sonja Haraldsen era filha de um comerciante e de uma dona de casa, trabalhava na loja de roupas do pai. Era uma plebeia.
O rei Olav V proibiu o filho de se casar com ela. Começaram então nove anos dramáticos: os dois se amavam em segredo, se separavam quando a pressão da corte ou da opinião pública se tornava insuportável, e voltavam. Harald jamais cedeu. "Disse na época que ficaria solteiro para sempre se não me fosse permitido casar com ela", relatou ele mais tarde. A ameaça era real — sem casamento, sem filhos; sem filhos, sem herdeiros ao trono.
Harald afirmou retrospectivamente que precisaram lutar contra quase todos: seu pai, os políticos e a imprensa. Até a princesa Astrid, irmã mais velha de Harald, hoje com 94 anos, ficou por muito tempo sem saber da relação. O próprio Harald descreveu o dilema como um conflito de lealdades: amava Sonja, mas sabia que, como herdeiro do trono, tinha uma responsabilidade especial diante de seu pai e de toda a Noruega.
A rendição do rei e o casamento relâmpago
No fim, prevaleceu no rei Olav V a esperança pela continuidade da monarquia. Em 19 de março de 1968, foi anunciado publicamente que Harald poderia se casar com Sonja. Cinco meses depois, realizou-se a cerimônia na Catedral de Oslo. O rei que há pouco foi sepultado com honras de Estado em Oslo havia conquistado, à custa de quase uma década de resistência, o direito de construir sua própria vida.
Uma corte sem espaço para mulheres
A adaptação de Sonja ao ambiente palaciano foi difícil. Historiadores descrevem a corte norueguesa da época como um ambiente que lembrava um "acampamento militar" — dominado por homens, sem espaço para a iniciativa feminina. Sonja revelou mais tarde que nem sequer tinha uma escrivaninha. Quando pediu ao sogro um escritório próprio, Olav V respondeu: "Para que você quer um escritório?"
Harald, por sua vez, navegava com frequência, ficando semanas fora de casa. Sonja permanecia só. O casal teve dois filhos, mas Sonja também sofreu abortos espontâneos, fato que só veio a público décadas depois, quando a biografia da rainha foi publicada por ocasião do seu 70.º aniversário.
A crise e a terapia que salvaram o casamento
O casamento entrou em crise. Sonja viajava com frequência a Paris para visitar amigos. Circulavam rumores de separação; aniversários chegaram a ser comemorados separadamente. No início dos anos 1980, a situação teria se agravado a ponto de Harald consultar o governo sobre os procedimentos legais em caso de divórcio — segundo relatos reproduzidos à época.
O casal, porém, buscou ajuda. Procuraram um conselheiro matrimonial, fizeram terapia e reencontraram um ao outro. Em 1993, ao celebrarem as bodas de prata, Harald declarou em seu discurso: "Parecemos harmoniosos, mas as coisas também não correm automaticamente bem para nós. Mesmo num casamento fundado no amor mútuo, os cônjuges podem se machucar mutuamente. É preciso saber perdoar. O casamento e a família valeram a pena para mim lutar por eles."
A lição que moldou uma geração
A experiência vivida por Harald e Sonja influenciou diretamente a forma como o casal lidou com as escolhas dos próprios filhos. A princesa Märtha Louise, hoje com 54 anos, casou-se primeiro com o escritor Ari Behn — considerado um enfant terrible da cena cultural norueguesa —, que morreu em 2019. Seu relacionamento atual com o norte-americano Durek Verrett, de 51 anos, que se autodenomina xamã, também é polêmico.
Ainda mais complexo foi o caso do príncipe herdeiro Haakon, que em 1999 se apaixonou por Mette-Marit, mãe solteira com um passado marcado por drogas e festas. Foi sobretudo Sonja quem abriu caminho para ela na corte. "Eu mesma sei como é cruel não ser aceita", disse a rainha. "O rei e eu quisemos desde o início transmitir a Mette-Marit uma sensação diferente. Ela é bem-vinda. Temos confiança nela."
A trajetória de Harald e Sonja — do amor proibido à terapia de casal, da rejeição da corte ao acolhimento das noras — traça o perfil de uma monarquia que, a custo de crises reais e superadas, aprendeu a ser mais humana.
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