EUA e Colômbia formalizam aliança militar contra o narcotráfico no Pacífico
O chefe do Comando Sul dos EUA, general Francis Donovan, visitou a Colômbia na semana passada para consolidar uma agenda antinarcóticos que abrange a vigilância marítima no Pacífico, a fronteira com o Equador e a reabilitação da frota aérea militar colombiana.
Escrito por Lucas Costa
(há 1 h)
O que aconteceu?
O general Francis Donovan, chefe do SOUTHCOM, visitou a Colômbia e o Equador na semana passada e reuniu-se com os ministros da Defesa dos dois países para formalizar uma agenda militar conjunta antinarcóticos.
Por que importa
A aliança reativa a cooperação entre Washington e Bogotá, deteriorada no governo Petro, e pode abrir caminho para operações militares conjuntas em solo colombiano, segundo o secretário Pete Hegseth.
A cooperação militar entre a Colômbia e os Estados Unidos avança em ritmo acelerado desde que o governo de Abelardo de la Espriella aderiu ao Escudo das Américas, a coalizão antinarcóticos fundada por Donald Trump — adesão ocorrida apenas duas semanas antes da visita que selou a agenda conjunta. O general Francis L. Donovan, chefe do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), esteve na Colômbia na quinta e sexta-feira da semana passada e reuniu-se com o ministro da Defesa colombiano, Jorge Mora.
"A visita do Comandante Donovan reafirma o compromisso de seguir trabalhando unidos contra os narcoterroristas, os cartéis e todas as organizações criminosas que pretendem semear violência", declarou Mora sobre o encontro. A conta oficial do SOUTHCOM, por sua vez, destacou a importância de "fortalecer a parceria de segurança entre os Estados Unidos e a Colômbia".
Tumaco, epicentro da vigilância no Pacífico
Um dos momentos centrais da visita foi a deslocação de Donovan a Tumaco, cidade encravada na costa do Pacífico colombiano e considerada uma das principais rotas de exportação de droga para o norte do continente. A região concentra a presença de grupos armados como o ELN, o Clã do Golfo e dissidências das FARC — organizações classificadas como terroristas por Washington.
Segundo o diário colombiano El Tiempo, durante a visita foi discutida a possibilidade de instalar radares em Tumaco para detetar embarcações ligadas ao narcotráfico. "A localização desses sistemas em Tumaco permitiria acompanhar movimentos de semissubmersíveis e lanchas a partir de uma zona utilizada como ponto de saída de carregamentos de droga e entregar informação às unidades colombianas", afirmou uma fonte citada pelo jornal.
O contexto é de crescente tensão humanitária: segundo uma contagem atualizada do New York Times, Washington lançou 68 ataques contra supostas narcolanchas no Pacífico e no mar Caribe no último ano, resultando na morte de 227 pessoas. Trump defende a estratégia como uma das mais eficazes para travar o narcotráfico na região, mas organizações de direitos humanos classificaram essas ações de "execuções extrajudiciais". O ataque mais recente contra uma embarcação ocorreu a 26 de agosto no Caribe, com quatro tripulantes mortos.
Reunião tripartida na fronteira com o Equador
Donovan também visitou San Lorenzo, cidade equatoriana junto à fronteira com a Colômbia, onde decorreu uma reunião tripartida com a presença do ministro da Defesa do Equador, Gian Carlo Loffredo. Os três países acordaram reforçar a presença militar na zona e estreitar a cooperação em inteligência para combater os cartéis. "A zona fronteiriça entre o sudoeste da Colômbia e o noroeste do Equador é um corredor importante para o tráfico de cocaína por parte de algumas das organizações mais violentas do mundo", publicou o SOUTHCOM na rede social X.
O diário equatoriano Expreso revelou ainda que durante o encontro foi ponderada a criação de uma base militar binacional entre a Colômbia e o Equador, embora essa hipótese não tenha sido formalmente confirmada pelos governos dos dois países.
Flota aérea e operações conjuntas
Donovan concluiu a sua visita no Forte Militar de Tolemaida, a base mais importante do exército colombiano, no centro do país. Entre os temas discutidos esteve a reabilitação da frota aérea militar: segundo dados recebidos pelo atual governo durante a transição, há dezenas de aeronaves fora de serviço, incluindo 11 dos 19 helicópteros MI-17 das forças militares.
Ainda nesta terça-feira, o SOUTHCOM anunciou a sua participação numa operação conjunta liderada pela Força Aérea colombiana que resultou na apreensão de 4,5 toneladas de cocaína, duas lanchas rápidas, três embarcações de alta velocidade e na detenção de oito pessoas. "A Coalizão das Américas contra os Cartéis (AC3) está a tomar medidas decisivas para derrotar os cartéis e os narcoterroristas no hemisfério ocidental", afirmou o SOUTHCOM.
Uma questão permanece em aberto: o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou ter sido autorizado a realizar operativos militares conjuntos em solo colombiano, mas as autoridades colombianas não replicaram essa declaração. A Colômbia é o maior produtor mundial de cocaína e os EUA o principal mercado consumidor — contexto que enquadra tanto a urgência da parceria para De la Espriella, que governa há menos de um mês, como o interesse estratégico de Trump em consolidar a sua política de mão dura contra o narcotráfico na América Latina.
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Fonte: El País